População brasileira que vive em favelas chega a 36,6%

O texto abaixo, assim como o post anterior, trata de um comentário sobre o livro Planeta Favela, de Mike Davis. Mas, trata, principalmente, de um aviso de como está alarmante de nossa situação. E assim como no post anterior me pergunto: Nós não vamos fazer nada? Vamos continuar a deixar nossa cidade ser invadida por favelas e ficar triste a cada tragédia publicada nos jornais?

2007-02-22 – Henrique Carneiro

Tragédias anunciadas: inchamento urbano, pandemia e aquecimento global Os dois últimos livros de Mike Davis, traduzidos no Brasil (O monstro bate à nossa porta. A ameaça global da gripe aviária, Record, 2006; e Planeta Favela, Boitempo, 2006) são uma análise lúcida e precisa das condições sociais e ambientais (melhor diríamos, sócio-ambientais, pois são intrinsecamente relacionadas) que nos esperam no futuro das próximas décadas.

Davis, analisou as ondas de fome do século XIX e suas relações com o clima, o mercado mundial e as expansões dos impérios europeus na Ásia e África. Agora, em 2006, com dois livros quase simultâneos, ele se debruçou sobre dois dos mais terríveis cavaleiros do apocalipse: a pobreza e a peste.

É difícil não sentir um arrepio apocalíptico diante dos cenários catastróficos que se combinam: explosão de hiper-urbanização favelizada em megacidades, aquecimento global e pandemia. A fome, a doença, a guerra e a pobreza potencializam-se num complexo espantoso de desastres e tragédias anunciadas.

Em algum momento de meados do ano de 2007, ocorrerá (ou já ocorreu…) um fato inédito na distribuição da população planetária, pela primeira vez na história da humanidade há mais pessoas vivendo em cidades do que no campo. Esse crescimento urbano se concentra em megacidades, especialmente na periferia pobre, em condições de crescente degradação das condições sanitárias e ambientais. O desmatamento e a poluição são o resultado de um modelo industrial de consumo de combustíveis fósseis e de disseminação atmosférica dos derivados de carbono que fizeram dos Estados Unidos o maior espoliador perdulário dos recursos naturais globais.

(…)A grande crise presente e futura do capitalismo, o verdadeiro “choque de civilizações”, como Davis parodia a fórmula de Samuel Huntington, é entre as crescentes populações urbanas faveladas e o sistema que as exclui não apenas da prosperidade, mas até mesmo da sobrevivência, pois passam cada vez mais a serem consideradas como “humanidade excedente” e, portanto, populações descartáveis.

Mike Davis denuncia os projetos surgidos sob a égide do Banco Mundial, a partir dos anos 70, como uma forma de desobrigar os estados nacionais das suas responsabilidades, substituindo o seu papel por projetos reformistas de “melhorar a favela ao invés de substituí-la”. A pulverização das ações particulares e isoladas reforça a urbanização irregular, a privatização das invasões e à perda na economia de escala na construção de casas.

A concessão de títulos de propriedade, como defende o peruano Hernando de Soto, e outras formas de promoção do “micro-capitalismo”, passam a considerar o defeito virtude ao elevar a informalidade econômica a equivalente do “empreendedorismo” capitalista”, mas, iniciativas como micro-crédito ou titularização de propriedade de terrenos favelados insalubres e sem serviços urbanos básicos, ao invés de trazerem consigo um potencial de enriquecimento social tendem a aumentar a divisão social interna nas populações, romper solidariedades sociais e iniciativas de reivindicações coletivas além de tirar o Estado do foco da exigência de uma política habitacional, substituído pelo semi-assistencialismo burocratizante e parasitário da imensa maioria das ONGs.

(…)Esse modelo de crescimento desordenado das cidades inverte todos os princípios do planejamento urbano: preservação dos espaços abertos, separação entre residências, condições ambientais não nocivas e leva a conseqüências destrutivas como desastres agudos e crônicos.

(…) O lixo sem tratamento, e particularmente os dejetos humanos são um dos problemas graves da megaurbanização caótica das cidades contemporâneas. Num capítulo intitulado sem rodeios “Viver na merda”, Davis afirma que “o excesso de excrementos é a contradição urbana primordial”. Na Índia, 700 milhões de pessoas defecam ao ar livre. Doenças relacionadas à ausência ou ao mau tratamento das águas, esgotos e lixos provocam cerca de 75% das doenças humanas. (queremos isto para nós?)

(…) Esta última, entretanto, na edição de Planeta Favela, incluiu um posfácio de Ermínia Maricato que, embora traga discussões importantes sobre as especificidades brasileiras e questione inclusive o cálculo de Davis de 36,6% da população brasileira vivendo em favelas, assim como o uso de uma bibliografia quase somente em língua inglesa, parece servir basicamente como uma defesa política dos governos petistas. É curiosa essa defesa política da gestão da prefeita Erundina em São Paulo e do atual governo Lula, ambos criticados por Davis, pois Maricato considera as críticas de Davis “pouco circunstanciada”, mas também se dedica a defender “no varejo” a política habitacional de Erundina ou aspectos das políticas sociais do governo Lula, sem levar em conta que a análise de Davis condena tais governos por sua submissão mais geral, “no atacado”, aos ditames da política financeira global, por manterem o pagamento das dívidas públicas e, assim, inviabilizarem qualquer saída estrutural para a crise do Estado e do investimento público, fortalecendo, ao contrário, os mecanismos de tutelização, fragmentação e cooptação dos movimentos sociais.

Henrique Carneiro é historiador formado pela USP e membro do Conselho Editorial da Revista Outubro.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: