Guerra do tráfico chega à Zona Sul e pode levantar discussão sobre a desfavelização

Favela do RioO texto abaixo é enorme, mas resolvi colocá-lo na íntegra pois merece ser lido com muita atenção. Trata-se de matéria publicada ontem no jornal O Globo. A matéria conta que a guerra do tráfico chegou com força à Zona Sul e diz como o pânico e a guerra podem destruir a imagem da vitrine internacional do Rio de janeiro. Mas, como diz o ditado: Há males que vêm para o bem. De repente quando o governo comerçar a perder veja o quanto é importante pensar na desfavelização da cidade.

 

 

Controle de favelas do Leme vira principal alvo do tráfico na Zona Sul.

Dsputa por bocas-de-fumo mobiliza quadrilhas até de outros municípios

 

Por Elenilce Bottari

 

A Zona Sul do Rio tem 15 quilômetros de praias. No entanto, é de frente para o único quilômetro de orla do Leme que está o mais novo calcanharde-aquiles da segurança pública.

         Há pelo menos um mês, a disputa pelos pontos de venda de drogas nos morros da Babilônia e do Chapéu Mangueira se intensificou e o bairro virou refém da violência: traficantes com fuzis e granadas vêm de várias partes da cidade e até de outros municípios, da Baixada Fluminense, para lutar pelo domínio das favelas.

 

O risco de uma nova guerra é iminente.

 

Na última segunda-feira, policiais da 57ª DP (Nilópolis) apreenderam na mata no alto do Chapéu Mangueira 21 granadas, quatro pistolas, uma metralhadora, uma escopeta calibre 12, três radiotransmissores, munição de vários calibres e carregadores.

         O material teria sido levado para lá por traficantes da Vila Norma, em São João de Meriti, para reforçar a quadrilha que já está na mata pronta para enfrentar o inimigo comum: o bando do traficante e assaltante José Ricardo Ribeiro Rosa, o Cágado. Cria do Chapéu Mangueira, ele rompeu com a facção que dominava a favela – a mesma que controla o Complexo do Alemão –  e assumiu o controle das bocas-de-fumo em 22 de maio passado.

         A Polícia Civil recebeu informações de que uma Sprinter com armas e bandidos da Favela Nova Holanda, na Maré, foi enviada, semana passada, ao Morro do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana. A favela é a base de operações da facção do Alemão na Zona Sul.

         Para evitar novos confrontos, a PM, que já ocupa o Chapéu Mangueira e a Babilônia, reforçou ainda mais o policiamento na região. Diariamente, policiais fazem operações na mata e patrulham os principais acessos às favelas.

 

Três facções já passaram pela área

 

            O subsecretário operacional de Segurança Pública, delegado federal Roberto Sá, explicou que a polícia vem conseguindo se antecipar a alguns movimentos das quadrilhas:

 Temos que agir com muita cautela. Estamos realizando diariamente operações na região e já nos antecipamos a vários movimentos de quadrilhas. Muitas armas foram apreendidas e traficantes, presos. Não é possível garantir se o interesse pelo Leme é econômico ou estratégico, pela sua posição geográfica. Toda a região está bem policiada e as operações vão continuar.

     Desde o início dos conflitos, já passaram pelas matas da região armas, munição e traficantes das três facções que disputam a venda de drogas no Rio, vindos de favelas como Rocinha, Pavão-Pavãozinho, Serrinha (Madureira), Vigário Geral, Mangueira, Nova Holanda, Mineira (Catumbi), Alemão, Dique (em Caxias) e Vila Norma.

         O conflito na região começou em razão de um drama pessoal. Cágado estava na cadeia cumprindo pena de 22 anos pela morte de uma pessoa durante um assalto a banco no Leme, quando ficou sabendo que um parente seu teria sido brutalizado por integrantes da própria quadrilha do Chapéu Mangueira. Na época, todos pertenciam à mesma facção, a que controla o Alemão e outras cem favelas do Rio. Com exceção da Rocinha e do Vidigal, todas as comunidades da Zona Sul estavam sob o controle dessa quadrilha.

Ao fugir do Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho, no início do regime semi-aberto, Cágado decidiu romper com o bando. Em março passado, assaltou a joalheria Gallery Gleffe, no Shopping Rio Sul. Com o dinheiro do roubo, comprou 15 fuzis e, recebendo apoio de traficantes da Rocinha, de uma facção inimiga daquela do Alemão, invadiu em maio passado os morros do Chapéu Mangueira e da Babilônia, entrando através da mata próxima ao Rio Sul. Não se sabe ainda por que a quadrilha da Rocinha se afastou e foi substituída por uma terceira facção, a que domina a Serrinha.

         Desde a invasão, a polícia ocupou as duas favelas do Leme e os criminosos se refugiaram na mata. É lá que acontecem os confrontos que vêm assustando os moradores do bairro. Para desarticular e prender as quadrilhas, o comandante do 19o-BPM (Copacabana), tenente-coronel Edson de Almeida, faz operações diárias no local.

         – Há algumas grutas lá em cima. E, principalmente à noite, é muito difícil ver as quadrilhas. Mas continuamos trabalhando. Desde que assumi o batalhão, em dezembro passado, já realizamos inúmeras operações, não só no Chapéu Mangueira, mas também na Ladeira dos Tabajaras (Copacabana), que é dominada pela mesma facção do Pavão-Pavãozinho. Até hoje, cinco traficantes morreram em confronto com nossos policiais. Mesmo sabendo que serão presos ou mortos, alguns continuam vindo para cá. Nós sairemos quando as duas quadrilhas estiverem desarticuladas – disse o oficial.

         Segundo ele, desde o início dos conflitos, a polícia apreendeu fuzis, metralhadoras, munição, coletes à prova de balas, granadas e uma bomba (encontrada na Tabajaras). Só numa operação, policiais do Batalhão Florestal apreenderam 1.027 projéteis, pesando 35 quilos, numa mochila escondida no alto do Morro da Babilônia. Da munição total apreendida, 427 balas eram de fuzil 7.62, 397 de pistola 9mm e 203 de fuzil AK-47. Também foram apreendidos quatro carregadores de calibre 7.62. Para atravessar a cidade levando armas e munição, os traficantes usam vans, táxis e “mulas”:

– Eles sobem a pé sem nada e, em alguns casos, usam mulheres para levar as armas. Aqui há muitos acessos pela mata, por vielas e até mesmo por alguns condomínios que são colados com a mata – disse o comandante.

         A preocupação de todos – moradores, comerciantes, autoridades e empresários da rede hoteleira – é evitar que os tiros atinjam inocentes e firam gravemente a imagem do turismo carioca. Isso porque 80% dos hotéis da cidade estão situados em Copacabana e no Leme.

         – O que acontece no Leme ou em Copacabana é vitrine – afirmou Alfredo

Lopes, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH).

– Se um tiro disparado da favela acertar um turista, isso irá para a primeira página de todos os jornais do país e também para os sites internacionais.

         Só para se ter uma idéia, até hoje circulam nos sites de turismo imagens das tendas do Exército para atendimento das vítimas da dengue no Rio. Esses problemas afetam profundamente o turismo carioca.

         Segundo ele, as ações das quadrilhas prejudicam enormemente moradores e turistas hospedados no Leme. –  As pessoas ficam apavoradas. A polícia tem mesmo que fazer esse enfrentamento. Aliás, esse enfrentamento foi evitado durante anos, talvez por isso mesmo essas comunidades tenham se tornado tão violentas.

 

Prejuízos para turismo e comércio

 

De acordo com Alfredo Lopes, ainda não é possível avaliar o prejuízo para o turismo que um mês de conflitos já causou. Já o empresário Umberto Vegetti, dono do Da Bambrini, garante que a violência provocou uma queda de pelo menos 30% no movimento do restaurante:

– Não somos afetados diretamente pelos tiros, mas claramente as pessoas estão com medo. Estamos aqui há 17 anos e nunca ocorreu uma situação como essa. Hoje, os freqüentadores ligam para perguntar se está tendo tiroteio, antes de decidir se vêm jantar aqui. No último tiroteio, tivemos que abrigar às pressas um grupo de turistas japoneses que passeava pela Avenida Atlântica quando o conflito recomeçou. Como as balas eram traçantes, eles viram que os tiros também chegavam à areia da praia. Isso é uma vergonha para todos nós  – desabafou o empresário.

         O presidente da Associação de Moradores do Leme, Francisco Nunes, defende o monitoramento com câmeras nas ruas e na orla como forma de melhorar a segurança e inibir os conflitos entre quadrilhas no bairro.

          O Leme é um bairro pequeno e tranqüilo, que pode se transformar em modelo de segurança para o resto do estado – disse Francisco.

         A preocupação com um possível confronto na Zona Sul não se restringe ao Leme. Informações da polícia também apontam para um confronto no Morro do Vidigal, que hoje é dominado pela mesma quadrilha que controla a Rocinha. Segundo moradores do Vidigal, desde que o traficante conhecido como Patrick – que já foi o chefe das bocas-de-fumo locais e integra a quadrilha do Alemão – deixou a cadeia, há boatos de que ele estaria reunindo um grupo para retomar a favela.

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